17/07/2026
Quem
chega a Espinho pela primeira vez estranha. Procura o nome de uma rua no mapa e
encontra apenas um número. Rua 19, Rua 24, Rua 31. Sem nomes de reis, de
figuras históricas, de santos ou de batalhas. Apenas números, organizados numa
grelha tão rigorosa que os locais dizem, com algum orgulho, que Espinho é como
Nova Iorque.
A
comparação não é totalmente descabida. Manhattan tem as suas avenidas numeradas
de norte a sul e as ruas transversais de este a oeste. Espinho fez algo
semelhante, mas por razões muito próprias, e com uma lógica que ainda hoje
facilita a vida de quem procura um endereço na cidade.
Como
nasceu a grelha de ruas numeradas
A
história começa em 1910, com a implantação da República. A nova ordem política
queria apagar as marcas da monarquia do espaço público, e isso incluía os nomes
das ruas. Em Espinho, onde o entusiasmo republicano foi, segundo registos
históricos locais, particularmente intenso, a ideia de substituir os nomes por
números ganhou força rapidamente.
A 5
de janeiro de 1911, a comissão nomeada para o efeito apresentou a proposta
final, com uma lógica que perdura até hoje: as ruas perpendiculares ao mar, que
correm de norte para sul, receberam números ímpares, 1, 3, 5, 7, e assim
sucessivamente. As ruas paralelas ao mar, que correm de este para oeste,
receberam números pares.
O
resultado é uma grelha ortogonal que funciona como um sistema de coordenadas.
Conhecendo o princípio, sabe-se imediatamente em que zona da cidade está um
determinado endereço, e qual a sua relação com o mar.
A
razão republicana por trás dos números
A
proximidade ao Porto, através da A29 e da linha ferroviária que liga
diretamente a cidade, continua a ser um dos principais argumentos para quem
trabalha na área metropolitana mas procura outra qualidade de vida. A isto
soma-se um perfil de comprador que há poucos anos praticamente não existia em
Esmoriz, famílias jovens, profissionais em regime de teletrabalho e
investidores que perceberam o potencial da zona antes da maioria do mercado.
O investimento público como sinal de
confiança
Não
se tratou apenas de uma decisão prática. A numeração das ruas de Espinho tinha
um fundamento ideológico claro. Os ideais republicanos assentavam no princípio
da igualdade, e dar nomes de figuras monárquicas ou religiosas às ruas
contrariava esse princípio. Os números eram neutros, igualitários e funcionais.
Houve
alguma resistência inicial, com um abaixo-assinado de moradores a protestar
contra os custos da mudança. Mas a proposta foi aceite e, mais do que isso, foi
interiorizada pela população de forma tão natural que hoje a numeração é parte
integrante da identidade de Espinho. Tanto que em 1974, quando a câmara aprovou
uma homenagem ao escritor Ferreira de Castro com o seu nome numa rua, a artéria
em questão continuou a ser chamada, por todos, simplesmente Rua 18.
O livro que conta esta história
Em
junho de 2023, a Câmara Municipal de Espinho lançou o 12.º volume dos Cadernos
d'Espinho, intitulado precisamente "A Terra das Ruas Numeradas". O
livro aborda a origem da malha urbana, os edifícios mais emblemáticos da cidade
e a singularidade de uma toponímia que, segundo os autores, faz de Espinho uma
cidade comparável a Nova Iorque pela sua organização urbana.
Para
quem quiser aprofundar esta história, o livro está disponível na Biblioteca
Municipal José Marmelo e Silva.
O que isso significa para quem procura casa
em Espinho
A
grelha numerada tem uma vantagem prática muito concreta no momento de procurar
um imóvel. Ao contrário do que acontece na maioria das cidades, onde é preciso
conhecer os bairros pelo nome e intuir as distâncias, em Espinho o número da
rua diz imediatamente onde o imóvel está posicionado.
As
ruas ímpares mais baixas ficam a norte, mais perto da fronteira com Matosinhos.
As mais altas ficam a sul, próximo de Silvalde. As ruas pares situam-se
progressivamente mais para o interior, à medida que os números aumentam. Saber
que um imóvel fica na Rua 7 significa perceber, de imediato, que está numa zona
central e perto do mar.
É um
detalhe que pode parecer pequeno, mas que facilita muito o processo de visita e
de comparação entre imóveis. E que é, em si mesmo, mais um traço de identidade
de uma cidade que nunca quis ser igual às outras.